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Meus caros, podem achar estranho mas os posts que se seguem foram escritos há mais
de 2 meses. Só agora resolvi transcreve-los – são a continuação e fim da minha viagem a
Ushuaia e à Argentina. Aviso: post looooooooooooooongo e chato.

Dia 6 - 10/09/2009

Hoje tirei o dia para andar. Levantei-me bem tarde (às 10:30) porque, apesar de tudo, eu
estou de férias e as férias foram criadas para descansar. Não posso chegar a Londres a
precisar de férias... Como de costume, o pequeno almoço foi servido directamente no
quarto. Hoje parece que se enganaram: mandaram comida suficiente para duas pessoas,
embora já esteja incluído na tarifa. Bónus!

Saio do hotel e meto pela San Martín. Ando devagar, calmamente, tirando fotos atrás de
fotos. Nada de excitante. Aliás, o dia de hoje foi o mais calmo de todos. Não tinha nada
marcado ou reservado por isso foi um verdadeiro dia de férias. A certa altura corto à
direita e começo a subir a encosta na qual Ushuaia se encontra. Subi até ao topo da
colina tendo atrás de mim o canal e a zona turística, e à minha frente ficava um bairro
residencial, no sopé da montanha. E foi aí que percebi a verdadeira dimensão da cidade.
Foi aí que entendi onde é que eles conseguem meter 60.000 habitantes... Deparei-me
com uns prédios tipo Portela de Sacavém cujo único interesse era mesmo estarem no
sopé de uma montanha lindíssima.

Viro à esquerda e desço a colina em direcção a outro bairro residencial. As casa são
todas pequenas, pintadas de cores muito berrantes e feitas em madeira com telhados de
zinco. Parecem casas pré-fabricadas, mas acho que esta é mesmo a arquitectura típica
da zona. Muitas das casas têm rosetas em cima das portas da frente o que lhes dá um ar
muito nórdico (estou a pensar nas casas de madeira islândicas). Os arruamentos nestes
bairros não são melhores que na zona turística: uma desgraça. Lancis todos desfeitos,
passeios todos esburacados (acho mesmo que é um problema nacional dado que em
Buenos Aires é o mesmo) e muita, muita lama.

Entro pelo bairro e começo a virar à esquerda em direcção à zona ribeirinha. Chego a um
parque à beira do Canal, mesmo em frente a escola técnica de Ushuaia. Pelos vistos
foram os alunos da escola que fizeram o parque - nada mal para estudantes... No meio,
bem no cimo da colina, estava uma estátua da Evita graffitada embora o jardim parecesse
bem cuidado.

Alguns alunos da dita escola passeavam, ou estavam sentados nos bancos, e foi aí que
me apercebi no número enorme de crianças que a cidade tem. Estamos a falar da capital
da província da Terra do Fogo, mas mesmo assim o número de jovens residentes numa
zona tão remota é surpreendente... Tem de haver trabalho suficiente para reter tanta
gente, só ainda não percebi é onde nem o quê... Outra coisa surpreendente é o facto de
andarem todos muito bem vestidos, só com roupinha de marca, roupinha de ski, muito
“menino dos Alpes”.

Desço até ao nível da água e começo a andar em direcção à zona turística. Chego à zona
do porto de recreio e corto à esquerda em direcção à área mais central de San Martín:
estava na hora de comer qualquer coisa! Sentei-me no café “La Tante” e aí fiquei
escrevendo postais e pondo a escrita em dia (a minha outra escrita, não esta). Saí do café
reconfortado e segui em direcção aos correios - uma cena impressionante. Vi-me nos
correios de Vouzela há 20 anos atrás. Uma agência pequena, com duas pessoas a
atender e uma fila enorme. O único sinal dos tempos era o facto de não se poder fazer
qualquer transacção porque “não havia sistema”, ou seja nada funcionava.Vim a saber à
noite que o cabo de internet que liga a ilha ao continente tinha sido cortado (pelos vistos
era uma coisa corriqueira - o concierge do hotel conta que numas eleições provinciais, a
governadora “mandou” cortar o cabo durante os 3 dias que antecederam as eleições para
que um video que a implicava em “gorjetas” passadas a pessoas menos próprias fosse
visionado pelos eleitores no YouTube. Sudamerica no seu melhor). No entanto, receber
alguns pesos em numerário como pagamento de alguns selos não precisava de “sistema”
por isso safei-me airosamente.

Após os correios dirigi-me à (única?) loja de música da cidade, situada na mesma rua.
Entrei e disse ao tipo que queria Rock argentino. Ele pos-me 10 CDs à frente (selecção
dele) e deixou-me ouvi-los a TODOS. Um deles era o vivo que tinha ouvido no bar à noite,
os Soda Stereo. Resolvi trazer 5 CDs cada um a 4.5 Libras cada, o que é ligeiramente
diferente das 17 que custa um CD em Inglaterra. Acho que foi um bom negócio... Saí de
lá satisfeito com a qualidade da música e do serviço. Ele ficou satisfeito porque fez a
maior venda do dia...

Depois da loja de música entro numa livraria para checkar o que se anda a escrever no
país em termos científicos. Acho que Ushuaia não é bem o sítio para se avaliar o avanço
científico em termos de livros, mas enganem-se se acharem que não tinha nada! Tinha,
basicamente, todos os livros-chave de estatística e economia escritos por autores
argentinos. Ponhamos as coisas nestes termos: alguém que leia aqueles livros fica com
conhecimentos suficientes para exercer a minha profissão. Nada mau para o fim do
mundo...

Saí da livraria e fui para o hotel descansar um pouco. Há dias que não paro um pouco e
começo a ficar cansado de tanto andar. Dormi um pouco e saí de novo para ir jantar. Metime
numa pizzeria novamente (que estava à pinha com um jantar de aniversário, só tipas
de 40-45 anos, lovely...) e quando saí meti-me novamente no bar a saborear uma boa
cerveja ao som de Rock. Desta vez não nevava - aliás, a neve derreteu toda desde
ontem. Estavam a decorrer um pequeno concerto acústico, um gig, GRATUITO, e por isso
fiquei até terminar, Voltei para o hotel preciso ainda de fazer as malas, Amanhã parto para
Buenos Aires. É o fim da expedição ao fim do mundo e o regresso à realidade...


Dia 7 - 11/09/2009

The day I was dreading for a while... O dia em que tinha de partir de Ushuaia. Toda esta viagem me parece surreal. No espaço de uma semana viajei de Londres para Madrid, de Madrid para Buenos Aires e agora Ushuaia. Passei do mundo que conhecia para qualquer coisa desconhecida. Passei do confortável de Londres para a desconfortável América do Sul. Agora já sei qual é a sensação... Falando de senções, já há uns tempos também que não sentia tantas saudades de alguém. Acho que estou no bom caminho. Anyway, lá fui eu de novo meter-me num avião num 11 de Setembro. True: é apenas um vôo doméstico na Argentina. Still... A viagem correu lindamente, fizemos escala em Rio Gallegos, outra cidade da província da Tierra del Fuego (que, aliás, já foi em tempos a capital da dita província) e que parece, pelo menos do ar, ser maior que Ushuaia. Também tem uma forma geométrica onde tudo se mede em “cuadras”. Ficámos apenas 20 minutos em Rio Gallegos e os passageiros que seguiam para BA nem desembarcaram. Fez-me lembrar um pouco o efeito camioneta da Carris...

Curiosidade do dia: afinal sempre se vê o Uruguay do outro lado do Rio de la Plata: mas apenas quando se vem de avião. Isto pode parecer óbvio, mas na realidade não o é. O estranho da questão é que só deixei de ver a outra margem quando estava mesmo mesmo a aterrar, com o avião quase a tocar a pista. Pode dizer-se que é uma questão de metros. Por isso aposto que nas grandes torres de escritórios se consegue ver a outra margem. Isto contradiz o que o taxista me disse a caminho do aeroporto quando fui para Ushuaia. Malandro...

Apanhei novamente um taxi pré-pago, o chamado “Remis” que me levou ao hotel, o tal onde devia ter ficado da primeira vez que estive em BA. Pois, da 1ª vez o problema era uma ruptura numa conduta de gás, hoje foi overbooking. Haja santa paciência... Cheirou-me a desculpa esfarrapada mas não tinha alternativa. Por isso lá fui eu de táxi para o mesmíssimo hotel de substituição. Pousei as coisas no quarto, tomei duche e saí para jantar. Comi no restaurante/grill “La casona” na Libertadores. Desta vez comi carne grelhada, a tão afamada parrillada. Foi bonzito, culminando num bolo de chocolate e noz que me deixou babado. Com tanta comida achei que devia andar um pouco antes de voltar para o hotel. E assim foi, meti pela Florida e fui caminhando lentamente, vendo as montras e as milongas “espontâneas” (para turista, claro) que se formavam ao longo do percurso. Aliás, nem precisei de ir a um clube para ver dançar tango – dança-se na rua. Decidi entrar novamente na livraria Ateneo e comprar algo especial para alguém especial. Espero que gostes...

Finalmente voltei ao hotel. Estou morto e preciso de dormir. Amanhã é o último dia na Argentina e tenho uma longa viagem pela frente, já para não falar que ainda quero ir ver um museu, pelo menos.

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